sexta-feira, 24 de julho de 2009

Amazoniar Belém

Mais um texto muito bom do publicitário Glauco Lima. Vale a pena ler até o fim.

Depois da derrota na escolha das cidades-sede para a Copa do Mundo Brasil 2014, Belém do Pará precisa parar de ficar se auto-flagelando, se dizendo o pior dos seres e dos lugares ou de ficar na cômoda posição de demonizar "uspulítucus" e todo mundo achar que não é responsável por nada que acontece por aqui.

Todos os segmentos da vida na cidade precisam se unir para pensar como não ficar de fora da próxima oportunidade de renascimento. Sim, porque a Copa não era uma oportunidade meramente esportiva, era depois de muito tempo, a chance de um novo salto cultural, urbanístico, econômico, social e político, como não se vê desde o ciclo da borracha. Talvez uma das causas de termos perdido a disputa foi termos visto a Copa como um campeonato de futebol. E ficarmos falando de Mangueirão, Remo e Paysandu, que para o mundo são o mesmo que nada.

Bem, mas não adianta ficar chorando sobre o açaí derramado. Temos que ter um pensamento que unifique a cidade e faça com que todas as ações, desde as mais pequenas até os grandes projetos estruturais contribuam para construir uma marca mundial para a cidade. E esta marca está em nossas mãos, ou quase escorrendo, mas aí está: AMAZÔNIA. A marca querida, percebida, desejada, discutida, visualizada, imaginada, entendida e desentendida no mundo inteiro.

Belém precisa se amazoniar. Passar por um grande processo de amazoniação. Querer o amazoniamento de suas ruas, avenidas, praças, casas, hábitos, cheiros, cores, valores, atributos, estilos, personalidade. Isso não é fácil. Mesmo porque, em termos de associação com a marca Amazônia, estamos bem atrás de nossa concorrente Manaus, que certamente por essa vantagem levou a Copa para a capital do Amazonas. Superar Manaus é quase impossível, até mesmo porque algumas condições na natureza e da geografia são irreversíveis. Mas podemos fazer muito e competir em termos mais igualitários, até vencendo em algumas pelejas.

Amazoniar inclui idéias e ações de governo, de prefeitura, mas também de empresários, da indústria, das universidades, da mídia, das igrejas, das comunidades, de todo mundo. Amazoniar pode ser ir mudando aos poucos os nomes de todas as ruas da cidade para nomes de peixes, pássaros, flores, rios, fenômenos da Amazônia. Acho que São Paulo, que é chamada de selva de pedra, tem mais ruas com nomes de natureza do que Belém.

Amazoniar pode ser construir aquários nas principais praças de Belém, com quatro, cinco metros de altura, onde as pessoas possam ver pirarucus, tambaquis, tamuatás, tartarugas. Amazoniar pode ser parar de querer ser Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo e assumir uma alma cabocla morena, ribeirinha, perceber que somos a capital do império dos rios, das praias de água doce com ondas, da chuva, do pitiú, que somos a capital do novo mundo cuja pauta primeira é a questão ambiental.

Amanoziar pode ser pagar a Madonna pra tomar banho em Mosqueiro e arrastar com ela toda imprensa do planeta. Pode ser pagar o cachê do Kaká para passar uns dias tomando açai e comendo pato no tucupi atraindo os olhares da Terra inteira. Pode ser trazer U2 para fazer show no Teatro da Paz, trazer a Amy Winehouse para se jogar do alto de uma mangueira abraçada com uma cobra e dizer que Belém é a loucura mais deliciosa. É, amazoniar não custa barato, mesmo porque o retorno do investimento vai ser mil vezes maior, trazendo ganhos como eventos do porte de uma Copa do Mundo.

Amazoniar Belém é tornar a cidade desejada por quem quer ecoturismo e aventura na natureza, como a Disney é desejada por quem quer fantasia infantil. Belém desejada por quem quer a Amazônia como o Peru é desejado por quem quer a mística de Machu Picchu. E esse negócio de dizer que nossa cidade é feia e suja não pode nos desanimar. Se fosse por pobreza e feiura essa multidão de gente que vai na Índia mudar a alma com seus gurus passaria longe de Nova Dheli. É claro que temos que resolver problemas, mas não podemos ficar achando que os lugares mais procurados do mundo são perfeitos. Ou alguém acha que Manaus e Cuiabá, para ficar só no tema da Copa 2014, já resolveram suas crises e são cidades de primeiro mundo?

Amazoniar pode ser assumir que sim, aqui jacarés andam pelas ruas, e criar mini parques onde as pessoas possam ver jacarés, cobras, peixe-boi. É virar a cidade de frente para o rio e para a baía, revertendo um equívoco de séculos que criou uma cidade envergonhada de sua geografia, evitando que tívessemos uma das maiores e mais belas avenidas beira-rio do mundo, indo do Guamá a Icoaracy. Nesta gigantesca orla poderíamos virar uma Copacabana Amazônica, com espaços de arte, cultura, lazer, esportes e entretenimento. Efervescência, gente criando música, poesia, uma bossa nova da selva.

Esse amazoniamento iria criando interesse cada vez maior, gerando mídia espontânea no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos, na China, aumentando a demanda do turismo, de congressos, de seminários, de eventos, fluxo de gente interessada em Belém. Só assim poderemos ter condições de receber e remunerar empreendimentos como hotéis de selva, restaurantes típicos, lanchonetes, casas noturnas, teatros, estabelecimentos amazônicos, criando uma atmosfera mágica, gerando por Belém o mesmo interesse que o mundo tem pelo açai, que ao ser bebido parece dar a sensação a eles de estarem ingerindo a selva e o vigor dos índios.

É preciso começar logo o amazoniamento de Belém, para que no médio prazo, depois de uns dias passeando na capital do Pará, uma pessoa lá no Japão, ainda cheirando a patchuli, responda assim quando perguntarem o que ela fez nas férias: - fui amazoniar! estava em Belém do Pará.

Glauco Lima

12 comentários:

Priscila disse...

Belo texto! Deu pra começar a "amazoniar" a mente.

Anônimo disse...

"Amazoniar pode ser ir mudando aos poucos os nomes de todas as ruas da cidade para nomes de peixes, pássaros, flores, rios, fenômenos da Amazônia".

Só não concordo com isso. Não pela mudança, mas por pensar em Amazônia só como uma "floresta", pois nós mesmos iríamos nos contradizer.
Temos que antes de tudo entender terminologias: Floresta Amazônica, Amazônia Legal, Amazonas.
A Amazônia é mt mais que peixes, pássaros, fenômemos. São pessoas, cidades, estilos de vida.

Juan Pablo disse...

"Sonhar não custa nadaaa!"

Glauco Lima disse...

O texto a aborda a percepção da cidade no mundo inteiro como Amazônia. Todas as significações positivas devem ser aprofundadas como floresta, Amazônia Brasileira, centros urbanos integrados ao verde, povos amazônicos urbanos e rurais, tudo que ajude a fazer um turismos sustentável!

Anônimo disse...

Gostei do texto do Glauco. Mas pra não ficar só no texto, vamos primeiro mudar essa foto do perfil. (Não conheço essa cena amazônica)

Abilio Couceiro disse...

O Edyr Augusto e o Nilson Chaves poderiam compor algo em relação a isso. Uma espécia de hino. Algo como "Bom dia Belém" misturado com "Olhando Belém".

Jr. Balla disse...

Muito bom! Fiz questão de também postar no meu blog.

www.jrballa.wordpress.com

Glauco Lima disse...

Jr balla
muito obrigado
vamos agora pedir em todos os blog que as pessoas mandem idéia para amazoniar Belém
emtodos os setores

Glauco Lima disse...

Gostei do texto do Glauco. Mas pra não ficar só no texto, vamos primeiro mudar essa foto do perfil. (Não conheço essa cena amazônica)

27 de Julho de 2009 17:35

Prezado anônimo. Quanto mais a gente anda por aí, quanto mais a gente olha, mais a gente tem idéia e sente o valor do nosso lugarejo
Mas vou pensar na gsugestãode mudar a foto

Aldridge Neto disse...

Sou paraense, mas morei meus quase primeiros 20 anos de vida fora de Belém, qdo encontrava um paraense eles sempre diziam como esta cidade é linda de pessoas hospitaleiras...
Qdo eu voltei foi de vez e não encontrei nenhuma das duas.
Não encontrei as pessoas não porque elas não existam, mas porque elas não ocupam os espaços públicos, estes também existem mas não são democráticos...ou elitizam ou segregam...a segregação começa pelo transporte publico e termina em espaços inacabados ou abandonados.
O mobiliário urbano eleva a auto-estima do cidadão...se vc asfalta ele pinta e reforma a fachada de sua casa.
Vamos amazoniar ocupando em passeata uma orla inacabada, um museu abandonado ou um parque ambiental inexplorado (sim nós temos um lago no meio da cidade) por exemplo...pra terminar...aqui falta campanhas educacionais sérias bancadas pelo governo.

Oportunidades Belém disse...

Anônimo do email, seu comentário não só ofendia a pessoa, como também não tinha argumentos concretos que me permitissem publicá-lo mesmo sendo anônimo. Você pode até discordar do texto, do post, da peça, de qualquer conteúdo, porém, se vai discordar como anônimo, o faça com os argumentos certos. Esse é um espaço democrático, mas não significa que vou dar abertura a ofensas pessoais.

Dj Laerte disse...

Esse é o Glauco que eu conheço...Parabéns pelo texto meu irmão, realmente precisamos Amazoniar urgente!